A vida é feita de momentos. É isso que sempre nos falam. Posso dizer que minha vida foi marcada por varios momentos. Há um pouco mais de 28 anos atras uma ligacao mudou a minha entao curta vida. Mas infelizmente foi desse mesmo jeito que domingo dia 8/4 minha vida tambem mudou.
Claro que eu sabia que meu pai nao estava tao bom de saude assim pra correr uma maratona. Coisa que ele nao faria nem se estivesse em top form. Mas a gente sempre tem esperanca de que as coisas voltem pro seu ritmo normal.
Desde o sabado que eu nao dormia direito depois da ligacao da minha tia kelly que eu mencionei no outro post. Ja tinha comprado passagem pra dia 12 na esperanca de que as coisas iriam sim dar certo. Umas poucas houras antes deu receber a ligacao que me deixou orfã de pai, ainda havia esperancas. Entre 11 da manha e as 16 daquele mesmo domingo eu fui uma filha esperancosa. Sai com meu marido pra espairecer, fizemos janta, comemos. Ate que o telefone tocou. Ainda revivo cada segundinho na memoria.
Eu nao queria acreditar. Como que é possivel que isso tenha acontecido em tao poucas horas. Eu nao sei explicar a sensacao, mas é de literalmente ficar sem chao, sem rumo. A ligacao em si nao durou tres minutos eu acho. A situacao era tao surreal pra mim que eu fiquei uns minutos calada – desesperada por dentro.
Liguei meu computador pra comprar outra passagem pra vir pra casa. Uma viagem que eu nunca gostaria de fazer. A mais dolorida de todas. Aquela que a gente nunca se prepara.
Entre o telefonema da minha tia e eu sair pela porta da minha casa nao se passaram 4 horas. Fiz tudo o mais rapido que pude na esperanca de poder chegar a tempo de dizer o meu adeus. São tantas coisas que eu gostaria de ter dito. Infelizmente nao consegui chegar. Pedi apenas que tirassem fotos pra eu ver. Nem sei porque fiz esse pedido. Mas quando as vi, nem o reconheci.
Desde que sai de Aarhus ate chegar no Rio de Janeiro foram 23 horas. A viacao Rio Doce conseguiu o feito de levar 11:30 entre o Rio de Janeiro e Governador Valadares. Mais rapido que isso eu nao tinha condicoes nenhuma de chegar em casa. É o preco que se paga por morar tão longe.
Não desejo a ninguem esse tipo de viagem. Doi, deixa a gente completamente sem rumo. Eu andava pra la e pra ca dentro de casa ajudando o jannick a arrumar minha mala, comprando passagem, falando com uns amigos no Brasil – mas totalmente no piloto automatico. Ate aquelas arranjos de flores eu lembrei de pedir minha amiga Larissa pra comprar por mim.
Eu sinceramente não sei nem explicar como consegui chegar inteira em casa. Eu me concentrava pra nao chorar sabe, pq não ajuda em nada viajar chorando o tempo inteiro. Cheguei no Rio e Sangela estava la me esperando. Detalhe é que eu nunca havia a visto na minha vida. Nos conhecemos pelo blog. Conversei de tudo, mas evitei falar do assunto pai.
Eu ja sabia que choraria quando chegasse em casa. Cheguei na rodoviaria e de la mesmo minha tia me falou que minha avo havia “esquecido” que meu pai faleceu e que era pra nao falar nada por enquanto. Ai doeu. Chegar em casa e nao chorar foi complicado. Achei que era ali que eu iria desabafar, chorar, xingar o inss por ter contribuido pro que aconteceu (longa longa historia). Mas minhas tias tinham tambem outras coisas pra me contar que nem vou escrever aqui porque me dá um nervoso só de pensar. Tem gente que nao respeita ninguem e nem situacao nenhuma mesmo.
Entrei em casa e fui no quarto do meu pai. As coisinhas dele tudo lá sabe. O quarto cheio de remedio, aqueles papeizinhos de insulina. O quarto com cheiro de hospital. As roupas dele precisaram ser todas apertadas. Meu pai tava tao magro, mas tao magro – efeitos da hemodialise. Não tinha mais vontade de comer, nao queria mais conversar. Acho que queria era descansar, que tudo aquilo passasse logo. A gente que é egoista e quer manter as pessoas que ama dentro de uma redoma. Mas as vezes não dá. Meu pai, eu acho, desistiu.
Deitei la cama dele. Fiquei olhando la pras roupas dele e nem sei quanto tempo fiquei ali. Ate minha tia entrar com a minha avo. Era hora de conversar com a minha avo.
Doi contar pra ela toda hora que meu pai morreu. Tem horas que ela simplismente esquece – se auto bloqueia sei la – e chama meu tio pra perguntar se ele foi no hospital ver meu pai. Ou entao, ela esquece que ele esteve doente. Minhas tias precisaram sair outro dia e eu fiquei a tarde inteira com ela. Tinha hora que ela falava assim: Essa era hora do seu pai chegar da rua ne minha filha. Tava ai andando, foi no hospital e nem saiu mais. Que nem seu avo.
Nao tem jeito, ela prefere nao lembrar do meu pai doente. Foram varios anos, e os ultimos meses foram doloridos. Pra todo mundo ao redor.
Mas nós precisamos ser fortes. Ainda tem a minha avo que precisa de todo o nosso cuidado.
Mas eu sei que doi. Doi saber que domingo que vem eu vou ligar la em casa e so vao ter tres pessoas pra eu conversar. Que nao vou poder pedir pra chamar meu pai, que nao vai ter ninguem pra me contar como o meu atletico é uma vergonha pros mineiros (isso é claro na opiniao de um pai cruzeirense haha). Doi saber que meus futuros filhos nao conheceram meu pai, que tenho certeza teria sido o melhor avo do mundo.
É um monte de se, se, e se que se passa na cabeca da gente. E a gente vai tentando retomar a nossa vida, tentando ser forte, consolando um aqui outro ali, na esperanca de que se a gente nao pensar muito no assunto, as dores, a saudade vai passar. Mas infelizmente ate hoje nao funcionou.
O que me conforta eh saber que eu fui uma boa filha, q meu pai foi muito bem cuidado e que fizemos tudo que estava ao nosso alcance. O que fica mesmo é a saudade, uma dor que infelizmente acho que nunca passará.
Muita gente que perdeu os pais vieram me dar conselhos sabe. Eu ouvi, agradeci um por um, mas ainda assim me achei muito nova pra ficar sem pai. Meu pai ainda tinha muita coisa pra viver. Mas nao da pra colocar todo mundo que a gente ama numa redoma nao é mesmo? E infelizmente foi a vez do meu pai.
Voltar pra casa (Dinamarca) tambem é dificil. Ajuda muito saber que em julho eu ja estou de volta. Meus sogros e eu tinhamos falado tanto de fazer uma “foto de familia”. A fotinha ainda vai ser feita, mas infelizmente a familia estara desfalcada.
Eu sei que as coisas vao voltar ao seu “normal” sabe. Foi assim com meu avo, com minha outra avo. Mas eu era pequena sabe, e crianca nao pensa mto nessas coisas. Eu criei o habito de conversar com ele aos domingos, fazer sempre as mesmas perguntas esperando ouvir as mesmas respostas. E agora isso ja nao acontecera.
Eu sei tambem que preciso ser forte. Pela minha avo, minhas tias. Por mim.
É uma situacao muito dificil que eu daria tudo que tenho para nao ter que ter passado por ela. Mas assim nao é a vida.
Pai, ate logo!!!