Estava fazendo o curso de Tesol (Teacher of English as a Second Language), e na minha primeira aula "teste" para minhas colega de curso, escrevi uma frase no quadro.
Escrevi com minha letra normal, cursiva, que até então era motivo de orgulho por ser redondinha, fofinha, etc.
Terminei a frase, olhei para minhas colegas, maioria asiática, e estavam todas olhando pra mim com uma cara inexplicável. Um misto de susto, pânico, pena, e "que língua é essa?".
Meu professor, que estava me avaliando, cochichou: "elas não entendem letra cursiva".
Em 30 segundos de terror reescrevi tudo no quadro de um jeito que achei que elas iriam entender.
Isso foi há 4 anos.
Nesse tempo reaprendi a escrever letra por letra, e deu trabalho. Nunca tinha escrito assim na vida.
Dou aula para alunos iniciantes que às vezes têm alfabeto diferente, então tenho que escrever no padrão correto.
O Brasil é um dos poucos países que ainda ensinam letra cursiva. Outros países latinos são meio a meio, alguns não ensinam mais.
Quando os alunos fazem algum exercício em dupla, e tem um brasileiro e um asiático, esse último não vai entender aquela letra redondinha e bonitinha.
Também tenho colegas de trabalho com dificuldade em entender a caligrafia de brasileiro.
Não consigo mais escrever no quadro com minha letra antiga, mesmo quando tive uma turma só de latinos, escrevia tudo separadinho. No papel fico na dúvida, e sai uma coisa meio esquisita, nem junto nem separado.
Letra cursiva tem o status de "cool", e os alunos me pedem pra escrever o nome deles assim, tiram foto, mandam pra família, colocam no facebook, acham o máximo.
Mas acho que a tendência é irreversível. Daqui um tempo a letra cursiva vai morrer.